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Dialética carnavalesca

Por Homero Fonseca
Quadrilhas juninas e carnaval: mais relações do que
imagina nossa vã filosofia - Foto: Carlos Oliveira/PCR
Durante um debate sobre Carnaval, ouvi uma informação surpreendente da boca do Sr. Carlos Orlando Pinheiro, presidente da troça Cachorro do Homem do Miúdo. Pra quem não sabe, as troças são os primos pobres dos clubes de rua: têm estrutura semelhante, o frevo é seu carro-chefe e sua origem é eminentemente popular. Mas tudo em escala menor (orquestra, figurantes etc.). E só desfilam durante o dia, enquanto os clubes são noturnos.

Aliás, pra ser mais preciso, os dois tipos de agremiação há muito tempo vêm passando por um lento processo de decadência, por conta de um complexo processo histórico, iniciado já na longínqua década de 30, quando o carnaval pernambucano passou a ser controlado pela Federação Carnavalesca e tutelado pelo poder público, que passou a financiar os desfiles e, em conluio com a Federação, a ditar normas e critérios de participação.

Tudo bem, não sou saudosista, do tipo que edulcora o passado e sonha com um congelamento do tempo. Tudo muda, inclusive as expressões culturais, populares ou não, entre elas o carnaval. Hoje, prevalece o carnaval-espetáculo, realizado em vários palcos, onde se apresentam artistas locais e, principalmente, do mainstream musical, a troco de altos cachês, para delírio das massas. Não sei se poderia ser diferente, mas sei que é assim.
Escapam dessa sina de atores-coadjuvantes, os blocos líricos, formados maciçamente desde suas origens pela classe média; os maracatus, tanto os de baque solto, quanto os de baque virado, que viraram cult, não só por conta mas principalmente pela explosão do movimento mangue-beat, e a empresa carnavalesca Galo da Madrugada. Também umas poucas agremiações de fortes vínculos comunitários, como Clube Ceroula, de Olinda, e similares.
Talvez eu esteja exagerando, porque uma característica do carnaval pernambucano é sua diversidade e sua forte presença no imaginário coletivo, de modo que se multiplicam tudo que é sociedade carnavalesca, dos mais diversos tipos, em tudo quanto é bairro.
Acho até que há lugar para todos sob o sol que incendeia o Recife e Olinda (e outras cidades do interior, sim senhor), nesta época de chuva, suor e cerveja. Inclusive o Recebeat, uma alternativa claramente não-carnavalesca.

Apenas constato essa tendência da espetacularização e passividade do público, que está desequilibrando a tal diversidade.
Pois bem, nesse quadro que expus muito genericamente e superficialmente, uma coisa bastante clara é a adesão, contrariada ou de bom grado, das próprias agremiações que, em busca de títulos de campeãs e principalmente dos subsídios governamentais, buscam a todo custo um glamour feito-para-a-televisão, elegendo um tema, aumentando o número de figurantes, fazendo fantasias mais luxuosas, acrescentando ou cortando personagens etc.
E aqui chego à surpreendente revelação de Carlos Orlando, do Cachorro do Homem do Miúdo, troça com 102 anos de existência e que não tem nem nunca teve uma sede. Durante o debate, desfiando as dificuldades das agremiações populares, Carlos Orlando lamentou o que chamou de “falta de material humano” para os desfiles (também pudera, a moçada prefere ficar hipnotizada na fila de gargarejos dos palcos, onde desfilam grandes nomes da música comercial brasileira, alguns de alto nível).

Daí, contou ele, muitos clubes e troças contratam quadrilhas juninas inteiras para compor por uma noite seu quadro de figurantes, a fim de desfilar com garbo e majestade perante as comissões julgadoras.

Em suas palavras: “Tem agremiação que, se for campeã e no dia de receber o troféu for chamada, não tem ninguém para ir. Só vai o presidente pegar o troféu, porque não tem o corpo da agremiação pronto. Não é dela. É contratado. É contrato de destaque, de passista, de tudo.”

Aliás, as próprias quadrilhas juninas também estão bastante carnavalizadas (prefiro-as assim, àquelas caricaturas preconceituosas com que os jovens urbanos de classe média pintavam os matutos, no passado, com roupas remendadas, dentes cariados etc). Já comentei esse assunto em outra postagem, neste blogue.

Taí um bom tema para os pesquisadores.

Um comentário:

  1. Olá Homero. Que bom encontrar este texto. No carnaval de Olinda deste ano tive justamente a ideia de escrever um ensaio (ou artigo, ainda não defini) sobre a dialética do carnaval de Recife e Olinda (que serve para os outros também). Nossa cultura está virando um espetáculo vazio de significados e não tem exemplo melhor como o da agremiação que vc colocou.
    Com certeza será meu próximo objeto de pesquisa, daqui um tempo voltarei para mostrar o resultado (talvez demore pq estou no meio do mestrado).
    força aos guerreiros da cultura de resistência! abraço

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