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Um mestre em cada esquina

Depois do falecimento do famoso passista Francisco do Nascimento Filho, um fenômeno de supostos novos mestres da dança do frevo está começando a surgir em Pernambuco.

ARTIGO
Sem o olhar atento do último profissional que era legitimamente considerado um mestre da dança recifense (Nascimento do Passo), está aparecendo atualmente, relatos e conversas entre alguns dançarinos da região, a respeito de passistas e pseudos foliões do nosso carnaval que estão desejando se transformar de uma hora pra outra, nos novos possíveis mestres da dança do frevo. O mais estranho disso tudo, é saber que esses autênticos passistas, que apenas há alguns anos deram início à sua trajetória no universo do ritmo, muitas vezes estimulam o fato e concordam em aceitar a indevida e imerecida alcunha.

Imagino como seria a transformação da história de vida de esforçados profissionais de dança na construção da biografia de um verdadeiro mestre do passo. Será que se faz um pelo certo número de aulas ministradas, apresentações ou por alguns anos pulando nos carnavais de Olinda e Recife? Se for assim, teremos um mestre em cada esquina e todo grupo que se preze terá o seu.

Pergunto-me qual a real necessidade disso. Seria o mais urgente a fazer? Sem avaliar a tolice que estão fazendo, buscam chamar a atenção para uma tênue carreira, sem compreender que nem mesmo os seus colegas mais próximos lhes dão o respaldo necessário para legitimar esta condição. Creio que a atitude seja uma saída para um mercado artístico saturado, em uma região em que os passistas se acotovelam, buscando as luzes mais brilhantes de uma notoriedade tanto desejada, e criando, talvez, um diferencial para se sobressair em meio a tantos iguais.

Não questiono a qualidade de determinados dançarinos que hoje estão espalhados pelo nosso estado e até fora do país, alguns, com trabalhos reconhecidamente louváveis e suficientemente merecedores de aplausos. Mas, a despeito disso, começarmos a instituir graduações de toda forma para satisfazer desejos pessoais e massagear os egos insatisfeitos de artistas frustrados, é outra história.

Que responsabilidade em alguém que, por um excesso de egoísmo, propaga informações tão autoelogiáveis? E como ficam àqueles que só há pouco convivem com os prováveis “catedráticos do passo”? Qual a probabilidade e o risco de serem persuadidos a ampliar o caso? Já pude observar desavisados alunos exaltando alguns dançarinos, cognominando meros instrutores de frevo, de mestres.

Existia uma máxima no discurso nazista que dizia: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”.

Afirmo que a intenção aqui não é criar polêmica, até porque tenho muitos amigos no meio, entretanto, gostaria que houvesse um esforço de raciocínio por parte dos envolvidos, para estabelecer um diálogo constituído pelo bom senso, numa análise voltada realmente para aspectos importantes do frevo, não deixando que interesses pessoais desvirtue uma discussão que poderia abarcar questões muito mais relevantes para o nosso ritmo centenário.

Poderíamos iniciar este debate fazendo diversas abordagens, como: a falta de apoio institucional para a dança; a carência de políticas públicas para os passistas; a ausência de engajamento da classe; a injusta relação de certos produtores no trato com alguns grupos, porém, um ponto em especial venho analisando há algum tempo: a constante padronização do passo, fenômeno que tem se proliferado por escolas, grupos e que nada traz de produtivo para o futuro do frevo.

Quando ingressei na Escola Municipal de Frevo do Recife no final de 1997, tive a impressão que estava num ambiente de formação cultural singular, e apesar de saber que todos ali tiveram a mesma base e passaram pelos mesmos ensinamentos contidos no Método Nascimento do Passo, nas exibições individuais, nas “rodas” ou mesmo em apresentações, assinalava-se sempre uma performance única e maravilhosamente imprevisível, numa demonstração de habilidade técnica elevada, proporcionada por uma metodologia que estimulava realmente o dançar autêntico e espontâneo de Pernambuco.

Enquanto isso acontecia na Escola, não era difícil observar na cidade, outros diferentes estilos de fazer o passo, e como se tornava comum identificar a procedência de determinados passistas. Quem acompanha a folia pernambucana há pelo menos uns quinze anos sabe o que estou dizendo. Hoje, parece que todos são iguais, não havendo diferença entre os dançarinos de Recife, Olinda ou de qualquer outro lugar - salvo algumas exceções - onde a distinção está apenas nas “pintas” realizadas.

Mesmo assim, parece que esses temas não têm despertado a atenção dos novos e ilusórios mestres do passo. Talvez porque eles estejam mais preocupados em ajustar seus currículos e olhar seus umbigos, do que perder tempo com assuntos que não chamam a atenção do público.

O frevo não será melhor ou pior com o estabelecimento intencional de novos doutores da dança, e se houver mestres, que haja por mérito e com a evolução natural do seu ofício e das intervenções significativas que estes, porventura, tenham produzido no decorrer dos anos. Egidio Bezerra, Coruja, Sete Molas e o próprio Mestre Nascimento, não foram criados por reuniões ou por escolhas aleatórias. Tiveram acima de tudo, o reconhecimento da sociedade pelo empenho em difundir sua arte, fazendo dela não só um meio de sustento e enaltecimento pessoal, mas, sobretudo, porque eram trabalhadores incansáveis e artífices fundamentais de sua essência.

Como podemos vislumbrar mestres sem ter acumulado legado e sem discípulos?

Obter reconhecimento custa tempo, prática, e não combina com a maneira que as pessoas atualmente estão acostumadas a pensar. Às vezes, o trabalho de formiguinha - aquele construído através de pequenas descobertas, experiências, erros e acertos do dia a dia - traz muitas alegrias, e ao contrário do que muitos pensam, é extremamente importante para a edificação de uma história cultural nas manifestações populares. O difícil é conhecer quem esteja disposto a esperar. E não adianta querer comparar outros segmentos da cultura tradicional para estabelecer um referencial facilitador que possa estreitar o caminho, e sirva como mote para o almejado e sonhado titulo. Um mestre de frevo deve ser legitimado pelo próprio frevo, e fundamentalmente aceito pela sua classe.

Aqueles que pretensiosamente ambicionam um lugar de destaque na nossa dança, até agora não exteriorizaram com conveniente eloquência as opiniões sobre o ato, e nunca deixaram claro em que ideias se baseiam para aprontar tamanho delírio. Como aconteceria a avaliação, quais critérios, formas e sob qual peso cultural esses indivíduos seriam submetidos. Se isso não acontece, sou forçado a acreditar que desejam assemelhar-se ao mais recente mestre conhecido. E só por isso, já seria uma tremenda insensatez.

Expondo uma nítida carência íntima, o ato de criação dos “Neomestres do frevo”, além de não esconder o desejo de alguns quererem ser vistos como artistas acima dos padrões convencionais, também não encobre um possível e descabido interesse financeiro nos planos. De acordo com o próprio Nascimento do Passo, não creio que esta notícia iria lhe despertar maiores entusiasmos. Sua trajetória passou por caminhos muito mais significativos do que simplesmente colher apoio em favor de uma graduação desnecessária e sem a devida estrutura histórica.

No caso dos Guerreiros do Passo, nenhum professor do grupo, mesmo àqueles que tenham se originado nas aulas de Nascimento, não carregam a designação, não a desejam e sentem-se desrespeitados quando o fazem propositalmente.

Lembrando que um dos princípios essenciais no estabelecimento da maestria é o tempo, sugiro aos aspirantes a mestres que continuem trabalhando, deixem de superficialidades, abram mais espaços, ponham a cara com coragem e defendam sua dança, formem multiplicadores, constituam técnicas, unam-se, assimilem conhecimentos, repassem saberes, respeitem seus colegas, sejam criativos, criem/recriem seus métodos. E com isso, quem sabe, daqui uns 30 ou 40 anos, tenham uma posição de destaque nas manifestações populares, e possam, também, ter seu nome registrado na história do frevo pernambucano.

Vivam os verdadeiros Mestres do Passo!
Eduardo Araújo

10 comentários:

  1. Excelente artigo, Eduardo. Nesse momento, a renovação é importantíssima. Mas a seleção também. Vai aparecer muito mestre por aí. Temos de ter um Spok na área da dança, no mínimo............

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  2. Eu chamei, Miro! Hehehehe! Força do hábito! São as minhas referências e acho que também a de vários que não conhecem o frevo com todas essas particularidades! Mas compreendo suas colocações e as acho pertinentes, Eduardo Guerreiro Do Passo. Pois existem muitos que querem para sí o, nem tão merecido, título! Acho pontual suas colocações, para ficarmos realmente alertas sobre o que a gente fala e propaga por aí em relação ao Frevo! Que mesmo com todas as possibilidades de espontaneidade, existe uma história por trás! Um passado baseado em muito esforço para mantê-lo presente em nossa cultura e não deve ser tratado de qualquer forma. Portanto, seguem aqui meus pedidos de desculpas aos colegas e amigos do Grupo Guerreiros do Passo, com a certeza de que esse tipo de discussão, apenas amplia meus horizontes em relação a dança! Salve o Frevo e um forte abraço a todos!!!

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  3. Agradeço primeiramente a Deus pela nossa vasta cultura e a minha mãe juntamente com meu tio de terem me dado o passaport para o carnaval de Pernambuco.Meu avô era balisa puxante da Troça Empalhador de Seu Feitosa e porta estandarte do Clube
    Bola de Ouro,isso nas décadas de 20,30 e 50.Trouxe no sangue a paixão pelo FREVO,aprendir a ser um folião e um folião pode ser um passista,porém nem todo passista pode ser folião e sabe porque?Pela vaidade de querer ser melhor,sabendo ele que o FREVO possui três rítmos,mas será que ele executar com perfeição todos ou simplesmente priorizam um por não dominarem os outros dois.O carnaval pernambucano não foi considerado o melhor ou um dos melhores do mundo por causa dos dançarinos de FREVO,pois foi pelo povo frevendo do seu modo e dando origem ao nosso centenario e genuino rítmo.

    Laércio Olímpio

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  4. Caros amigos Geurreiros do Passo,

    daqui a pouco até os levianos que jogaram o nome dele na lama irão dizer que foram formados por ele e tal.
    Vocês não imaginam o quanto de gente que já conheci aqui em Natal e que diz que fez curso com Boal.
    Infelizmente temos que conviver com essas pessoas, mas tenham certeza de uma coisa, quem realmente foi aluno dele demonstra isso no seiu trabalho, no dia a dia, e até onde pude ver no Recife, so vocês Guerriros do Passo, são e foram devidamente habilitados pelo meste Nascimento do Passo para a missão de eternizar o frevo.

    Parabéns pelo trabalho, pela resistência e paciência com os mediocres e aproveitadores de plantão. Eles sempre existiram e existirão.

    Daqui a pouco, quando morrer outro grande expoente de qualquer coisa, eles logo mudarão de ramo.
    Pode esperar pra ver

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  5. Eita!será que depois desse texto os mestres de frevo vão aparecer, será que eles podem preencher esse currículum: O que fiz pelo frevo, o que faço, qual minha interferência, quantos alunos tenho ou tive, cadê o resultado do meu rabalho. Fazendo aula ou indo p/ apresentações não forma mestre e nem deixar alguém lhe chamar de mestre, será que quem chama alguém de mestre sabe o verdadeiro significado, acho que não. Nascimento sim, ele pode preencher esse currículum e muito mais, então possíveis mestres cuidado com sua formação de mestre preencha um pouco esse currículum e boa sorte. Gil Silva.

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  6. Caro Eduardo,
    conheci de perto Nascimento do Passo, ainda menino, na Rádio Clube de Pernambuco, pelas mãos de meu pai, Jota Austregésilo. Quando eu estava na TV Universitária, chegamos , eu e ele, a pensar em um livro descrevendo os passos de frevo que ele criou, inventou. Acompanhei a trajetória do Balé Popular do Recife, (dos Madureira, meu amigos) responsável pela multiplicação de grupos e escolas de frevo, maracatú, caboclinhos (cabocolinhos, como querem alguns brincantes) e tantas outras manifestações de dança popular nordestina. Quando leio algo como o seu artigo, fico feliz sabendo que há uma atenção, uma energia permanente para a invenção do passo, do frevo; uma invenção e multiplicação de nossas identidades de raça, credo, cultura, dança, música, teatro e por aí vai até chegar ao infinito da terceira margem (Guimarães Rosa) onde ninguém é dono do discurso (mesmo que seja imagético). Nascimento, homem do povo (no passado, Nize Brito, passista contratada da PRA8, Rádio Clube de Pernambuco) foi um inventor de passos consagrados até hoje.Nscimento era um mestre de esquina, como diz você, entre os mestres de cada esquina. Mesmo pobre e do povo conseguiu a notabilidade nao acadêmica. Nelson Ferreira, em depoimento gravado em disco de Silvério Pessoa, afirma que observava os passistas (de) na rua, para compor determinados trechos e acordes de seu frevos.
    Um mestre em cada esquina, sem diploma de papel, mas reconhecidos pela incorporção, expressando na caixa da alma a energia "que começa na cebeça e termina no pé". Seu artigo confere o mérito a quem ou é esquecido ou é explorado na exibição para o olhar estrangeiro, aquela história "para turista ver".
    Fico feliz ao ler e sentir que o diploma que é dado aos mestres das ruas e de cada esquina tem a validade da tradução universal, aquela que se transporta para os mais diversos limites, além das geografias, e que alcança a mistura que permeia e edifica a cultura do ser humano universal, as identidades, alcançando a terceira margem da cultura.

    Abraços,
    José Mario Austregésilo

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  7. O mais interessante de “Um Mestre em cada esquina”, é sua reflexão-ação-reflexão sobre a prática de quem não apenas dança, brinca, faz, mas principalmente, pensa, questiona, problematiza essa prática. Onde quem faz, se faz e refaz, de dentro pra fora, num movimento em espiral, revelando a pulsação, o diálogo dos bastidores trazido à tona, latente, não estanque ou alijado ao carnaval. Marcante, diário e... vivo!
    Mestres? Estamos todos longe desse mérito. Estudiosos, "curiosos", espíritos inquietos em busca de conhecimentos/experiências, isto sim, é mais cabível! Pra ser Mestre, muita "vela" tem que comer, desaforos engolir ou enfiar goela abaixo, muito trabalho tem que fazer, professores formar, e tudo aquilo já apresentado no texto (ou mais)... E isso não se faz com palavras em um curriculum ou com concepções iluminadas, mas sim com ações concretas, de real impacto, reveladoras de uma profunda dedicação e respeito para com essa manifestação.
    Resumindo, trabalho! Trabalho árduo como o que o verdadeiro Mestre travou a vida toda, onde não sabíamos onde terminava o frevo e começava a vida, onde terminava o passo e começava a música, onde terminava a música e começava o pensamento.
    Nascimento do Passo, Mestre! O resto? O tempo dirá.

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  8. Meu caro Eduardo, gostei muito do seu texto, é oportuno e muito lúcido. Concordo com suas razões, em genero, numero e grau. É hora de se dar nome aos bois, principalmente aos já reconhecidos pela dedicação e prestação efetiva e profissional ao trabalho de difusão elaboração e respeito ao nosso ritmo maior, o frevo. Parabéns...
    Renato Phaelante.

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  9. mestre seremos nos que fazemos pela arte . mas não estaremos em cada esquina nem seremos nos que nos intitularemos, o povo dira isso assim deixou nosso mestre nascimento como exemplo !
    téco canindé

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  10. Isso mesmo duca , mas deixa esses mestres precoses se acharem. o problema que onde tem duvida e questionamento , falta algo . o nosso mestre podia ser criticado por muitas coisas por muitos , mas ninguém nunca o questionou por ser mestre , mesmo quem nao gostava dele . se alguém se intitula mestre e agente do meio ta espantado , tem coisa errada ai.
    Vejo gerações muito mais antigas como Adriana, Tonho das Olindas que fizeram e fazem até hoje , professores de vários professores , não fazem questão de serem chamados de mestre , como também a antiga geração do balé popular. esse titulo tem que se reconhecido antes de nos da comunidade da dança que ja somos muito críticos , pela comunidade pernambucana. isso custa muitos alunos ai , muitos projetos , muitos empurrões na ladeira, pra qualquer folião ou motorista de ônibus saber quem é aquele ali e que ele é do frevo. como o proprio mestre quando andava o ano todo vestido de passista , até os motoristas de onibus deixavam agente entrar pela frente. e quem viveu isso e nao entendeu ta com problema mesmo. isso comparo quando toquei maracatu a primeira vez na minha vida , era coisa de negro de macumbeiro coisa que ninguém queria , iam buscar a galera no terreiro pra tocar no batuque , hoje é coisa de elite da midia da Europa , agora as vantagens são melhores ufssss. Mas no final só a verdade fica quem fez. Quem ta tentando fazer agora tem 2 opções ou começou coisa boa mas agora , ou vai ficar tentando fazer ou aprender a fazer que não fez antes. Essas coisas não se questionam, se provam. Como meu pai biologico me disse uma vez, peça uma foto antes de 97 ou pergunte pelo menos a 5 alunos que ja dão aulas e façam bom trabalhos
    Téco Canindé

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