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O IMPROVISO NO PASSO

Publicado em 06 de novembro de 2015.


Artigo de opinião
A cada nova imersão no universo da dança do frevo surgem questionamentos que necessitam ser investigados e esmiuçados de uma melhor maneira no conjunto dos seus fazedores. E entre os assuntos, um merece destaque atualmente: o IMPROVISO. Sendo um tema que hoje em dia é quase impossível não ser tratado na produção da dança moderna, entre bailarinos, coreógrafos e no meio acadêmico.

A ideia deste texto nasceu da necessidade de dar melhor vazão a um ponto específico da metodologia do Mestre Nascimento do Passo, a qual os Guerreiros do Passo utilizam em suas aulas no Projeto Frevo na Praça, no bairro do Hipódromo.
Como todos sabem, os professores do grupo difundem bastante a importância do artifício improvisacional do passista no ambiente da roda. O que muita gente sugere, erroneamente, é que isso só é feito apenas nesse momento particular, assegurando ser a única ocasião onde se vê na prática o trabalho de improvisação que o grupo tanto propaga. O equívoco de entendimento traz à tona discussões acerca da qualidade da metodologia do Mestre e sua importância como elemento formativo para a dança do frevo.

Convivi com o Mestre entre os anos de 1997 e 2008, sendo um dos seus discípulos, e nunca vi e nem presenciei ensinamentos que tolhia a INTERPRETAÇÃO PESSOAL do dançarino. Pelo contrário, o momento da “roda” era uma grande festa e um espetáculo de distintas formas de fazer o passo. Lembro também de um fato que, inclusive, tem reprodução atualmente no projeto desenvolvido pelos Guerreiros, que é o estímulo dado à audição dos frevos, realizado com treinamentos específicos para o aluno entender os diversos floreios e nuances característicos de cada composição. Esse assunto sobre a audição da música, será melhor explicado mais adiante no texto.

Antes de aprofundar no tema, gostaria de ressaltar uma questão, a cerca do grau de improvisação alcançado pelos alunos no Projeto Frevo na Praça, mantido pelos Guerreiros do Passo. É preciso dizer que isso depende fundamentalmente de sua frequência e assiduidade nas atividades do grupo, sendo também, fator preponderante para o seu progresso como um todo na dança do frevo. Aqueles que visitam esporadicamente as aulas, muitas vezes só como uma prática de atividade física eventual, talvez não ofereçam um parâmetro razoável para uma análise qualitativa. Ou seja, participantes com maior dedicação no Método, poderão receber de forma mais eficaz uma apreciação quanto ao seu aperfeiçoamento nesta dança. Quem empreende esforço com constância pode conseguir resultados satisfatórios. E naturalmente, o improviso é um desdobramento desse comprometimento.

O aluno, antes de chegar na roda, passa pelos 40 movimentos do Método, (Sistema de passos do frevo organizado pelo Mestre, conectados de forma crescente em seu grau de dificuldade). O participante é levado a exercitar a técnica em todos os encontros do grupo. O aluno vai descobrindo seu ritmo, sua força, obtendo a devida coordenação motora. Por outro lado, o grupo de professores avalia a aptidão, resistência corporal, e o nível coreográfico, ajustando, quando necessário, a sequência do Método com constante apelo de criatividade na condução das aulas. As adaptações visam atingir de maneira razoável todos os envolvidos no projeto, sem desvirtuar, claro, da obra do Mestre Nascimento.

O comando repetido dos movimentos da metodologia nas aulas, que para alguns parece maçante e tediosa, é a maneira que Nascimento do Passo encontrou para produzir resultados nos seus discípulos. Segundo a passista e professora Lucélia Albuquerque:

““... quando se fala da dança e seu ensino, acreditamos que é necessário sim um mínimo de organização, intencionalidade, objetivo.
Não necessariamente a palavra “comando” quer dizer “limitação”, “aprisionamento”. (Fragmento de comentário extraído de página na internet: https://oespacodopasso.wordpress.com/2013/05/07/sobre-frevo-e-gaiolas/#comments)

O diálogo no ambiente de ensino muitas vezes não precisava acontecer em intervalos específicos. O contato do professor com o aluno ocorria e ocorre hoje, por meio de uma aproximação no andamento das atividades. Um “toque” rápido aqui e acolá para que ele possa entender como fazer melhor, perceber se os braços e o Pontinha de pé necessitam de uma maior energia, ou deve fazê-lo mais lento ou mais acelerado. Como se dá as alterações nos diversos planos de execução dos passos, se se faz um movimento como a Tesoura ou o Pisando em brasa em plano médio, e como mudar para um plano baixo para fazer o Tesourão ou Plantando mandioca, de que maneira interligá-lo a um salto ou giro no ar, por exemplo. Essas orientações fazem parte da aula e estão intrínsecas na metodologia do Mestre, inclusive, no que ele convencionou chamar de Famílias dos Passos (conjunto de movimentos conectados com ligação lógica).

O compromisso com o fazer bem feito o movimento é notório nos professores, por isso, a preocupação permanente de se observar a execução do passo, por exemplo, se os ombros do passista devem ficar arqueados ou esguios; como fazer as transferências de peso nos descolamentos laterais; se os artelhos deverão ser trabalhados naquele instante ou não, isso tudo, é claro, preocupado ainda com a preparação física do aluno, se ele suporta um pouco mais de carga de exercícios, ou deve parar e retomar em seguida, se a exaltação dele está impulsionando-o a fazer determinada acrobacia, correndo o risco de comprometer suas articulações e estruturas ligamentares. E ai reside a importância da metodologia de Nascimento do Passo, comparada a outras maneiras de trabalhar o frevo na cidade, possibilitando um amplo estudo desta dança e um facilitador para o aprendizado da mesma. Afinal, o frevo não é só alegria e brincadeira. É preciso ter responsabilidade com os corpos dos participantes, incluindo jovens, crianças e até idosos, que necessitam de um olhar específico em relação às suas estruturas corporais e limitações físicas.

Nos Guerreiros, assim como acontecia nas aulas do Mestre, o estímulo ao personalismo do dançarino é uma constante. Todos são levados a despertar unicidade em sua exibição, nada de copiar fulano ou sicrano. Confesso que na Praça do Hipódromo, onde realizamos as atividades do grupo, nunca aconteceu de alguém sentir-se influenciado a imitar os trejeitos de outro colega, mas, já houve casos quando ministrávamos aulas na Escola Municipal de Frevo, nos tempos áureos de Nascimento, mas logo em seguida era rapidamente resolvido.

E a roda, mostrada no Método na parte final dos trabalhos, é a ocasião em que é possível vislumbrar o que o aluno apreendeu e introjetou durante algumas semanas em contato com os instrutores do Projeto. Podemos analisar neste momento, a desenvoltura do participante e se ele apresenta alguma dificuldade ou até inibição que o desestimule a se soltar. Se a velocidade de sua dança condiz com o andamento do frevo executado. Perceber também, o seu estilo, buscando entender sua propensão a grandes saltos/pulos ou a graciosos agachamentos, ou até mesmo a combinação desses estilos. Isso ainda, sob o olhar atento de passistas mais experientes que permanecem interagindo no recinto, incentivando e revezando-se entre os alunos, buscando manter a empolgação e o entusiasmo da roda. É o instante de registrar os primeiros movimentos do passista rumo ao caminho que ele irá percorrer, estimulando sua busca por um trajeto particular e singular no frevo. Momento crucial para observarmos as habilidades de um provável improvisador.

Não adianta querer participar de duas ou três aulas, ler livros sobre “Contato Improvisação” e desejar que as transformações façam efeito. Um bom improvisador tem domínio proporcional à sua experiência no frevo. O problema é que muita gente mantém um olhar distante do ritmo, e vive a incorporar conceitos de dança contemporânea, entre outras, adotando modelos e técnicas que muitas vezes não se enquadram nas atividades propostas, justamente por que não foram concebidas para este gênero artístico.

Certa vez surgiu um questionamento: como esperar que passistas demonstrem características coreográficas singulares na roda, se as aulas dos Guerreiros são “padronizadas”? (a expressão “padronizada” aqui foi atribuída à repetição dos 40 movimentos iniciais da metodologia do Mestre). Buscarei fazer um comparativo um pouco mais próximo da realidade para tentar expor de forma mais clara a questão. Utilizando o exemplo do futebol, observamos que no treinamento dos jogadores, a comissão técnica do time realiza repetidas vezes, práticas de fundamentos e preparação física com o seu elenco. Pois bem, no dia do jogo oficial, as atividades em regra não restringem a capacidade criativa presente nos atletas. Neste caso, os treinos servem de aprimoramento das habilidades já reconhecidas nos jogadores. Quando o trabalho de preparação não acontece de modo como foi planejado, o risco é a diminuição dos resultados esperados. Portanto, trazendo o modelo para o universo do frevo, a forma como é esquematizada a parte preparatória das aulas, não reduz a liberdade de ser livre na roda. Pelo contrário, dá respaldo para aperfeiçoar tais aptidões.

O improviso na dança do frevo é desencadeado, sobretudo, pelo acumulo do repertório coreográfico que o dançarino adquire no processo da aprendizagem e da maturidade de suas habilidades. É quase impossível dizer que, no frevo, o improviso pode ser alcançado naturalmente por qualquer participante, sem que para isso seja necessário conhecimentos mais avançados. Ai vem à pergunta... Por que então não se dá a possibilidade ao indivíduo de chegar lá de forma mais rápida? Respondo fazendo outra indagação... Para quê? É possível desenvolver estilo próprio em poesia sem ao menos o autor ter um domínio suficiente da escrita? É primordial ter dedicação e tempo para as aquisições começarem a fazer o efeito desejado. Há passistas que chegam aos espaços das aulas já querendo improvisar, buscando mostrar um “jeitão” particular em suas apresentações, sendo regidos muitas vezes por um impulso exibicionista, sem ao menos ter a preocupação primeira de internalizar informações elementares do ritmo.

Digam-me, improvisar é, por exemplo, juntar elementos do Cavalo-Marinho, do Passinho do Rio de Janeiro ou do Balé clássico ao passo? Creio que seja bem mais do que isso, no entanto, já pude assistir “profissionais” propondo algumas interações exóticas, que muitas vezes mostram-se inconsistentes e pouco criativas. Vale salientar que a minha preocupação não é com amálgamas rítmicos, e sim, com uniformizações propositais que empobrecem o frevo.

Outro aspecto a ser levado em consideração, é a diferença entre a improvisação e a “munganga”. A habilidade de improvisar no passo é diferente daquilo que se vê comumente num “mungangueiro”, que apesar de em certo momento chamar a atenção pela forma curiosa de apresentação, caracteriza-se mais como uma saída para a sua pouca experiência ou incapacidade de assinalar passos mais elaborados. E não adianta querer usar trajes pouco comuns para se destacar perante o público, semelhantes aos utilizados pelos Guerreiros do Passo. O figurino não pode encobrir aquilo que o corpo não expressa. Evidentemente, existem passistas e foliões com tais propriedades de “mungangar”, porém, sendo isso a extensão de suas qualidades inatas e de seu norral artístico. São raros, mas existem.

Então, como explicar o porquê de dançarinos com longa vivência no frevo não apresentarem características singulares em sua dança? Justamente porque tais passistas negligenciam conceitos que os colocariam num lugar único, os individualizariam ante a tantos outros iguais. No mínimo, por ingenuidade, esses passistas acabam sendo influenciados por ideias cristalizadas de certos “professores” e pseudos “mestres”, que não acrescentam em nada, pelo contrário, põem o frevo equivocadamente no lugar de uma dança de movimentos limitados e preestabelecidos.

Não é difícil observar que alguns dançarinos quando estão fora do compromisso da exibição profissional, levam para os seus momentos de descontração no carnaval, e em demais ocasiões, as mesmas “sequências” e características do trabalho realizado nos seus grupos de origem. São os chamados robôs do passo, assunto que já foi tratado em texto anterior neste site. E lá, neste texto, chamo a atenção sobre a tendência de padronização no frevo, todo mundo faz os mesmos passos, do mesmo jeito, as apresentações parecem ser todas iguais. Contrariando isso, o escritor e folclorista natalense Luís da Câmara Cascudo, disse certa vez: "No mar do frevo, cada peixinho nada de seu jeito”.

Fazer o passo, e, principalmente, improvisar, é ter a capacidade de soletrar palavras em forma de movimentos, é compor frases, escrever linhas inteiras de modos e gestos próprios. Tem haver com aquilo que trazemos de memória pessoal, do que achamos da vida, pensamentos e potencialidades que entram em contato com o mundo exterior, e o que permitimos internalizar daquilo que vem de fora. E quanto mais exercitarmos, a dança irá se tornar cada vez mais natural e espontânea. Digo, improviso em frevo é como um recurso virtuosi do executor, de sua bagagem de conhecimentos e expressividade. Talvez podendo ser comparado aos arranjos de um buliçoso frevo de rua, mas, só um bom músico, conhecedor apurado de composição pode fazê-lo com maior primor. O resto é intenção de mostrar ao público aquilo que na verdade não inspira consistência.

E por falar em frevo de rua, não podemos esquecer de fazer referência a um tópico em especial no treinamento do passista: a AUDIÇÃO DO FREVO. A música é, essencialmente, um componente de destaque no exercício do passo. Se formos quantificar sua importância diria que constitui 50% de tudo que é realizado. Na verdade, é a complementação dos gestos e movimentos executados. É nela que encontramos esteio e inspiração para buscar acrescentar emoção e empolgação na dança. Nascimento do Passo já repetia: “O passista é o instrumento fora da orquestra”, complementam-se. O próprio Mestre estimulava seus alunos a perseguirem as diversas orquestras pelas ruas históricas de Olinda e Recife, sabendo ele, que esses encontros festivos do frevo, ofereciam uma ótima oportunidade para o treinamento dos ouvidos e dos pés dos passistas.

Segundo o Maestro Guerra Peixe, estudioso musicista que pesquisou o ritmo e o carnaval pernambucano por alguns anos, ao fazer referência ao passo do frevo, disse:

"... e aí encontramos um fenômeno único na música popular brasileira. É a única dança em que o dançarino dança a orquestração. Cada volteio de um instrumento é acompanhado por um passo ou uma firula (volteio, rodeio) do passista. É uma dança individual, com a maioria dos passos tradicionalizados, mas que cada um executa a sua maneira". (Dantas. Leonardo. Fragmento de texto publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 31.03.2007).

Então, como “dançar na música”?
Incorporar a musicalidade do frevo ao seu passo não é uma tarefa fácil, haja vista o que temos notado por ai nas ruas e em apresentações do gênero. Todavia, não deve ser assim: Vai lá, dança no frevo! É preciso, sobretudo, empenho. Em termos práticos, e para entender melhor as diversas peças instrumentais do ritmo, o frevo-de-rua ou canção são basicamente compostos de perguntas e respostas, de notas curtas e longas, de paradas (breck), de sequências lentas e rápidas, de “contrastes bruscos”, e são nessas linhas características do ritmo que os bons compositores, como: Levino Ferreira, Zumba, Carnera, Lourival Oliveira, Toscano Filho, Eugênio Fabrício, Edson Rodrigues e Nelson Ferreira, entre outros, direcionam suas atenções. E o passista deve igualmente mirar seus ouvidos nesses aspectos, independentemente se são gravações antigas ou novas, variações ou até arranjos criados sob a influência do jazz. O passista deve entender em que momento responderá às mudanças súbitas da composição, ou a um rompante mais vigoroso de um arranjo. Se tem sentido executar saltos num determinado andamento do frevo, se a música está sugerindo isso (pedindo) ou não. Se uma série de movimentos deve ser quebrada em detrimento a um acorde mais cadenciado, e assim por diante.

No frevo, para improvisar, além de tudo que foi relatado acima, é indispensável escutar. Só um passista com a audição razoavelmente treinada pode transformar em êxtase aquilo que apreende os seus ouvidos. Ainda segundo Guerra Peixe, em texto publicado em 1959, escreveu:
“... os clubes contratam numerosos músicos, especialmente trombonistas, e com eles realizam ensaios primeiramente internos, e depois externos, a fim de que músicas antigas sejam recordadas e as últimas novidades sejam aprendidas pelos dançadores. Esses ensaios proporcionam o treinamento de passistas e, vale ressaltar, estes dançam não somente as marchas em si, mas dançam as melodias e as respectivas orquestrações, pois são as melodias e orquestração que sugerem os passos. Ritmo, melodia, orquestração e passo formam um todo na dança do frevo.”
(A Gazeta – São Paulo, 26 de dezembro de 1959).

Conhecer bem o frevo e estar atento aos seus diversos segmentos instrumentais, não apenas à sua marcação percussiva, é fundamental para o treinamento da audição, e isso, junto ao exercício de variados passos, constitui um todo que será decisivo para o passista imergir na dança do frevo, e até criar seus próprios movimentos, de maneira que poderá posteriormente escrever suas expressões e partituras corporais, transformando-se num dançarino notável, sem igual, único entre muitos. E a importância cultural e histórica do trabalho de Nascimento do Passo com a dança pernambucana e a atenção que ele deu às suas especificidades, como é o caso do Improviso, é de extrema necessidade salvaguardá-lo para outras gerações. E esse é o compromisso dos Guerreiros do Passo desde a sua fundação, disseminar sua arte a crianças, jovens e adultos, a praticarem uma dança que além de ser surpreendente, liberta, convida, arrasta, e acima de tudo, particulariza a presença do passista no seu espaço de atuação.

Certamente fazer reflexões num artigo sobre o ato de improvisar no passo, talvez seja pouco eficaz para a implementação dos conceitos apresentados. O que seria mais conveniente, é fazer o convite aos interessados a visitarem o espaço de atividades dos Guerreiros para mergulhar nesse rico universo da metodologia do Mestre Nascimento, estabelecendo um diálogo constituído sobre o seu legado cultural, e evitando com isso, que um olhar simplório e distante venha a desvirtuar e/ou tirar conclusões precipitadas sem ao menos o indivíduo ter uma experiência razoável dentro dessa técnica.

Por outro lado, determinar qual o lugar de onde deva permanecer o frevo, seguramente é um erro. E a intenção aqui não é definir “verdades absolutas”, ou ratificar uma opinião pessoal sobre aquilo que acredita ser o frevo “original” e “autêntico”. Abrir discussões sobre as padronizações que a atual globalização impõe a nossa cultura, talvez possa ser um caminho. Globalização essa que coloca as manifestações populares num mesmo lugar, onde as vontades, os gestos, linguagens e tradições do povo permaneçam num ambiente hermético, fechado, folclorizado, perdendo gradativamente a importância de suas riquezas artísticas e culturais.

Dessa forma, fica aqui a sugestão para o aprofundamento das discussões a respeito desse precioso tema, que é o Improviso no Passo, e de outras ideias, visando a construção de um debate mais amplo, para que o assunto em questão seja bem mais estudado não só na teoria, mas no dia a dia dos seus fazedores, e numa prática fundamentada na vivência e não somente no desejo mesquinho de querer ter algum reconhecimento dentro do frevo, sem estar minimamente embasado sobre a história do ritmo, do Mestre Nascimento do Passo e do seu Método.

Viva o Frevo!

Eduardo Araújo
Radialista, fundador e coordenador dos Guerreiros do Passo

11 comentários:

  1. Eduardo. Simplesmente elucidativo e informativo seu artigo. Nele podemos perceber as diversas nuances que caracterizam de forma muito particular nosso Frevo uma dança de certa forma unicamente individualista, no bom sentido, permitindo a múltiplas nuances do nosso fantástico FREVO. Parabéns. Abraços.

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  2. "Um bom improvisador tem domínio proporcional à sua experiência no frevo". Falou e disse tudo. É muito fácil perceber, principalmente depois da abertura da caixinha "dança popular" no edital do Funcultura, que muitos trabalhos em dança vão emergir com essa proposta de frevo "misturado" com tudo. Antes disso já notamos esses trabalhos de improvisação com o frevo vinculados com aspectos da tal Dança Contemporânea, e quando falo a "tal Dança Contemporânea" -é tendo em vista que muitos nem sabem sobre o que falam ou fazem, simplesmente acreditam que a onda do momento é essa. Não condeno, mas confesso que não é do meu agrado. Cada um com seu livre arbítrio, eu não gosto dessas saladas, ou melhor, acredito realmente que para propor algo "inovador" precisa-se conhecer muito sobre a base. -Se não tenho frequência nas aulas, nos estudos do Frevo, como vou me meter a fazer junções de técnicas?! -No máximo teria como "resultado" algo falso e visivelmente imaturo aos olhos de quem o vê. É nítida a percepção de quem se sente confortável para improvisar, assim como percebemos facilmente quem está apenas querendo colocar o nome de pesquisador do passo e que tem a velha resposta pronta pra tudo: -Ah! é assim que meu corpo sente e quer se expressar.
    Da mesma maneira percebemos as mungangas, ai como forçam. Não adianta, é algo que vem de dentro. Enfim, texto bem legal e convidativo para reflexão. Agora que temos tantas vertentes do frevo (frevo consciente, frevo Pilates, "frevo tudo"), refletir é sempre bom.

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  3. (GERALDO SILVA) - O FREVO não determinou como seria dançado. O povo assimilou e se lançou na rua com sua EMOÇÃO e LIBERDADE.
    Alegra-me ver a multidão solta sem as CORRENTES fazer com o seu corpo o PASSO que lhe manda o ritmo frenético do FREVO.
    Qualquer grupo ou escola de dança pode criar seu estilo de dança baseado no FREVO. Criar nuance de danças segundo suas propostas. Porém não devem querer se levantar como o novo FREVO ou coisa assim. Visto que, de longe já denota a intenção de sublevar a cultura centenária.
    FREVO, fundamentalmente, tem DANÇA livre, IMPROVISANDO com sotaques, trejeitos e molecagem nascidos do próprio dançarino. Na multidão dançante, não será possível encontrar igualdade em dois dançarinos. Salvo nos grupos criados especialmente por métodos para este fim.
    Todavia, temos necessidade sim, de criar normas e ensinar os passos básicos, um trabalho meticuloso de Nascimento do Passo. Para os iniciantes na arte da dança estimulando sua criatividade e improvisos. A multidão parecia FREVER na Pracinha do Diário nos anos 50s.
    Muito bom, Eduardo. Você está de parabéns com suas investidas. EVOÉ!

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  4. Participar das aulas de frevo sob a metodologia do Mestre Nascimento do Passo é desenvolver a técnica do passo e o improviso intrínseco do passista.
    Adquirir o hábito de ouvir a música em outros ambientes são estímulos dados a todo tempo aos aprendizes do projeto frevo na praça, no qual o Grupo Guerreiros do Passo ministra. Acredito que para se desenvolver o improviso é, além de praticar muito a dança e ouvi-la, viver o frevo em sua fonte, está dentro da massa, sentindo a energia e o calor do frevo.

    Não me agrada ver passistas, mais enfeitados do que árvore de natal, dançar coreografias em frente às orquestras. Pra mim isso não é frevo! Sou aquele que pouco viu, mais o que vi foi o suficiente para ter como referência o passo realizado sem ornamentos brilhantes e nem por isso menos belo. Até porque, não vejo beleza em passistas que estão mais preocupados em aparecer pintosamente do que fazer uma muganga de carranca! Sem preconceitos!!! Não me entendam mal, apenas afirmo (porque sei!) que viado para entrar numa fanfarra tinha que ser muito macho!

    Frevo foi uma dança agressiva e hoje não deixou de ser, apenas disfarçada em dança!

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  5. Anônimo6 de novembro de 2015 21:03
    Primeiro que tudo o frevo é PLURAL, emquanto o passita é SINGULAR diante do mesmo.
    Frevar é arte perante tudo e para todos, porém IMPROVISAR é um dom que conquistamos ao logo dos anos. É a soma do nosso empenho com a arte de dançar o frevo, são atalhos perceptivos pelos foliões, passistas, dançarinos, onde eles moldam seus corpos entrando nas partituras de um frevo, explorando o abstrato das notas musicais e casando em movimentos concretos e harmônicos, que as vezes causam ciumeiras em "maestros", acreditem!...Mas não vêm o caso.
    Um bom IMPROVISADOR, muitas vezes nem sabe de seu potêncial em improvisar. Falo isso pelo fato de ser um passista-folião, compromissado com o carnaval de rua e vejo muita vezes alguns foliões desenvolvendo tais habilidades ao acompamhar uma determinada orquestra e o mesmo começa a desenvolver o seu frevar singular, abrindo um repertórioa de passos, mungangas e improvisos que o frevo execultado estar pedindo. Daí forma-se uma roda improvisada por foliões sem que aquele passista egocêntrico perceba, pois pouco importa para ele. O que ele quer é cair no passo.Entretanto, existem aqueles "passistas" que querem e abrem rodas a todo custo para simplesmente sair na televisão ou mesmo ganhar um trocado. Esta fala de PASSISTAS DUVIDOSOS é de Guerra Peixe em um dos seus textos: MÚSICA E OS PASSOS NO FREVO de 1959.
    Cheguei no GUERREIROS DO PASSO, fisgado pelo espetáculo O FREVO, no início foi chato, estranhei. Nunca participei de outro grupo. Metodologia?!... O que é isso?... Hoje o grupo me tirou do anonimato. Fui incentivado por todos os professores. E hoje tenho algo a mais no meu currículo de frevista: Um repertório de passos que tendem a almentar. Também!... Sou aluno dos discípulos direto do MESTRE NASCIMENTO DO PASSO!!! Tenha atitude! Se eu tive!... Porque você não pode ter?!



    LAÉRCIO OLIMPIO

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  6. Entre tantas colocações tão consistentes, detenho-me por hora:

    "Nos Guerreiros, assim como acontecia nas aulas do Mestre, o estímulo ao personalismo do dançarino é uma constante. Todos são levados a despertar unicidade em sua exibição, nada de copiar fulano ou sicrano. Confesso que na Praça do Hipódromo, onde realizamos as atividades do grupo, nunca aconteceu de alguém sentir-se influenciado a imitar os trejeitos de outro colega, mas, já houve casos quando ministrávamos aulas na Escola Municipal de Frevo, nos tempos áureos de Nascimento, mas logo em seguida era rapidamente resolvido".

    Creio que a influência da característica de algumx passista em específico é até natural. Ali está um espelho que lhe serve de guia, que lhe dá a mão, especialmente, no momento em que se está havendo apropriação da dança, nos primeiros passos. Com o tempo, é evidente que a dança vai tomando x passista e elx se colocando, falando de si daí. Especialmente pelo nível de complexidade e os vários níveis de conhecimento de que se vai senhoreandx. No texto se evidencia perfeitamente essa constância, dedicação e entrega que se deve ter. E esse evento específico, ser um falar individual que se apropria desse código geral (bem lembrado o destaque aos movimentos básicos do método), se aperfeiçoa nx passista com o tempo. Apenas de pessoas muito distanciadas da reflexão-vivência do frevo, a tal abordagem de que “como esperar que passistas demonstrem características coreográficas singulares na roda, se as aulas dos Guerreiros são “padronizadas”? (a expressão 'padronizada' aqui foi atribuída à repetição dos 40 movimentos iniciais da metodologia do Mestre)” surtiria algum efeito. É exatamente esse estímulo a se colocar individualmente através do/ no/ e com o corpo - sendo dança individual - que faz emergir esse movimento próprio (um código comum tão repleto das singularidades de quem o realiza). Há um sequenciamento de movimentos, óbvio, não há geração espontânea nos vários estratos culturais. Os movimentos teriam de vir de algum lugar. Além do mais, está se falando de aulas, abordagem didática, etc. Mas aqui, são heranças que são permanentemente reinventadas, reinseridas, questionadas, relocalizadas. Conhecimentos/ ensinamentos de Resistentes: combatentes que se impõem diante da planificação cultural das instituições, da indústria do mass media, etc.. Isto resulta bem diferente de se sobrepor um sequenciamento congelado que caberia em um espetáculo específico a se falar do frevo, mas que não seria e nem será o frevo enquanto dança, o passo. Há espaços de fala que requerem ser compreendidos e defendidos.

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  7. Eduardo, sua escrita é clara e a metodologia que o grupo está desenvolvendo muito coerente com o perfil dos integrantes. Gostaria de aproveitar o espaço para apresentar parte do Programa de Dança da Escola do Paço do Frevo.
    O Programa de Dança como proposta educativa busca oferecer atividades direcionadas ao estudo, formação, transmissão e difusão da dança do frevo (passo), propiciando condições favoráveis ao estímulo e desenvolvimento profissional, físico, social e cultural. Propõe-se, nele, tecer e ampliar as múltiplas redes, técnicas e repertórios que existem no universo sociocultural do frevo, em sua heterogeneidade e complexidade, articulando, desse modo, as dimensões de arte, educação e sociedade.
    Nosso programa está em construção, e para atender a diversidade e complexidade do universo do corpo que dança frevo precisamos formar parcerias que desejem pesquisar, investigar e multiplicar olhares para as diferenças. Como educadora do corpo que dança, percebi durante o primeiro ano de vida do Paço, um fazer educar que precisava acolher as necessidades simples e orgânicas, como ouvir e sentir a força energética do corpo, enfim abrir os canais de escuta interna para percepção do Frevo, para tal, é necessário tempo. Neste segundo ano de vida iniciamos a investigar cursos direcionados a prevenção de lesões, práticas de movimentos conscientes, pensando na construção do corpo que brinca frevo e seus cuidados permanentes, para os diferentes perfis e públicos.
    Atualmente na Escola buscamos estimular fazer-pensar-corpo que dança Frevo, em diferentes propostas, cursos, encontros. Provavelmente em 2016, iremos repensar e ajustar o que for necessário.
    Pretende-se, por consequência, estimular e potencializar as diferentes visões, formas, produções artísticas e propostas metodológicas para o conhecimento da Dança do Frevo. Reforçando a importância da expressão como parte da história de vida e memória coletiva. O espaço, e a escola estão abertos para o diálogo e recebimento de propostas para oficinas e programação durante todo ano.
    Forte abraço
    Daniela Santos
    Coordenadora de Dança do Paço do Frevo

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  8. Ótimo texto! Acredito que a dança do frevo é um mundo de possibilidades. Mas, como já dito, não se pode escrever belas poesias se não dominarmos os significados das palavras. A arte de frevar exige prática, dedicação, curiosidade, autonomia, dentre tantas outras coisas... sempre existirá algo novo para aprender. Proporcionar um ambiente de aprendizagem onde o aluno possa aprender e ensinar com o professor, com o mundo, no mundo, faz toda diferença. A medida que os alunos frequentam o Projeto Frevo na Praça, eles ganham elementos que, muitas vezes, não são trabalhados nos locais "formais de ensino". Confiança é um deles! Não se trata apenas de aprender a técnica, mesmo sabendo da sua importância e do seu lugar na dança, trata-se de algo maior, trata-se de aprender a se reconhecer como sujeito capaz, sujeito que pode e deve criar novas formas de dançar, sua forma de dançar. Mas tal conquista não é algo fácil, como explanado por Eduardo, criar não é fácil!!! Quando um aluno chega ao ponto de "improvisar" na roda significa que ele já venceu, conquistou, aprendeu, descobriu, redescobriu muitas coisas.... timidez, confiança, auto estima, autonomia... pode ter certeza que esses elementos foram trabalhados ocultamente com os alunos... para que um simples silêncio do primeiro dia de aula ou aquela negativa com risinho de quem tá morrendo de vergonha de entrar na roda... transforme-se na consolidação de um aluno protagonista...um aluno que se vê capaz de ousar, arriscar, improvisar na roda... por isso acredito que quando alguém vai ao Projeto Frevo na Praça ela não está aprendendo "apenas" a fazer passos... ele aprende/ensina fazer passos e em paralelo a isso também aprende uma série de valores que o acompanharam por toda vida! Ai podemos ver a complexidade que se trata o ato de improvisar...

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  9. Frevo é coisa séria...Há quem leve na brincadeira,mas frevo é coisa séria.Frevar está no sangue de qualquer Pernambucano,mesmo que de forma inconsciente mas está.Um simples cruzar de pernas ou um levantar de ombros no ritmo do frevo,é frevar,e isso é coisa natural da gente.Porém em matéria de execução de passos e improviso,é a hora que a gente separa os homens dos meninos.Eu achava que ser passista era só saber fazer uma tesoura,um saci,e um bico de papagaio,executar isso em sequência e tava pronto pra sair com uma sombrinha nas ruas.Pobre de mim,pois foi o que aprendi no meu primeiro contato com o frevo no qual nunca fizeram uma roda na aula para que a gente pudesse demostrar nosso aprendizado.E por falar em roda,é a hora que nossos corações só faltam saltar pela boca e a hora que nada do que a gente sabe fazer saí ali,mesmo com alguns meses de aula.Depois eu vi que frevo não é só aquilo que eu pensava,vi nas ruas alguns passistas dançarem conforme a música e deixar transparecer que ele era um folião e a extensão da orquestra conforme dizia o maestro Guedes Peixoto no documentário SETE CORAÇÕES.Improvisar é complicado.É escutar a cadência do frevo,deixar penetrar e envolver nas nossas almas e explodir nas terminações dos pés e das mãos com a sombrinha.Tem que ter bagagem pra isso,realmente não é pra qualquer um.É arriscar-se a se machucar e lesionar-se seriamente,é investir numa coisa que não lhe dá retorno financeiro, é ser criticado,mas é também fazer o que gosta e se sentir bem, vivendo,curtindo a vida naquilo que traz prazer e paz ao nosso espírito.Em fim,pra ser um bom passista improvisador é preciso muita dedicação,escultar muito frevo,ter coragem, e sobretudo trazer dentro si seu jeito próprio de fazer frevo dançado.Um dia a gente chega lá.Evoé...

    Em:09/11/2015 Joelmir Lopes.

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  10. Ótimo texto, desnaturaliza o pensamento da dança espontânea e/ou natural, não tem nada de natural e nem orgânico na dança. Pensar em improviso, é sobre tudo pensar na técnica, que por sua vez traz metodologia que é sistematizada, então começa a desnaturalização dai. Pensar também em Frevo é reconhecer que além de um patrimônio histórico, sócio-cultural é entender que o fenômeno do Frevo é um gerador de capital, e como tal é assimilado e associado para tal fim também, pois bem, digo também, não podemos ser inocentes em ficar com pensamentos folclóricos de que o frevo não mudou ou não mudaria, ser tradicional é reconhecer quem veio antes e nos deu vasão para dançar e incorporar a dança hoje. Também entendo que virilidade não está associado ao masculino apenas como dar se a entender em alguns comentários, se pensar na mulher em sua historicidade no frevo é reconhecer a resistência e luta, já no que se diz aos HOMOSSEXUAIS afeminados ( pois só viado é quem pode chamar o outro assim) é pensar em um deslocamento dessa possível virilidade masculina em outra perspectiva a qual não cabe aqui estender. no mais pensar frevo é sempre bom e faz parte também do passista ler e refletir.

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  11. Improviso no frevo é quando o passista dança sem uma preparação prévia, isto é, sem os passos serem concebidos antes do momento em que dança e será tanto mais intensa quanto mais o passista harmonizar o seu dançar à música.

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